Odisseu ou Odimeu? (A Odisseia do Nolanverso)
| Então, o Brasil jogou como nunca, e perdeu como sempre, a Copa do Trump terminou com a vitória de alguma seleção que eu não me importo, e vida que segue. Aliás, acompanhem o Falha de Cobertura, está cada dia melhor, fazendo, inclusive, críticas mais sérias do que muitos ‘mesas redondas’ por aí… Dito isto, vamos para algo que todo mundo estava esperando ansiosamente: a primeira parcela do décimo terceiro, digo, digo, o mais novo filme do Nolan: A Odisseia. Bem, pode ser que você que está aí do outro lado lendo esse texto agora não tenha se importado tanto quanto este que escreve, mas isso é só mais um ponto que eu quero abordar depois. Botão da consulta marota com alguma IA (inteligência artificial) ligada para a ficha técnica: dirigido por Christopher Nolan, o filme, que tem duração de 172 minutos (2 horas e 52 minutos), e produção de US$ 250 milhões, é focado na jornada de retorno de Odisseu (Matt Damon como protagonista) e elenco que inclui Anne Hathaway: Penélope (esposa de Odisseu), Tom Holland: Telêmaco (filho de Odisseu), Zendaya: Atena, Charlize Theron: Calipso, Samantha Morton: Circe, Lupita Nyong’o: Papel duplo como Helena de Troia e Clitemnestra, John Leguizamo: Eumeu e Robert Pattinson: Antínoo. Já aviso logo que a minha curiosidade sobre esse filme é baseada em boa parte numa má vontade com o Nolan, explico: com base na cinematografia dele, que já tem essa assinatura de tudo querer tornar crível e racionalizável (link para Amazon), não somente na questão da retratação de suas estórias, mas também até na forma de produzi-las. Esse traço marcante de direção e roteiro, que antes o tornava um diretor interessante, já se esgotou, pelo menos para mim. Por isso, fiquei instigado que uma das maiores peças mitológicas de todos os tempos no ocidente tenha gerado esse trabalho nas mãos dele, e o resultado não me decepcionou: é um filme medíocre. ![]() Para quem conhece, o épico literário por si já gera debate por diversos fatores, inclusive a própria autoria, a famigerada ‘Questão Homérica‘, e isso é parte do sucesso da sua duração ao longo do tempo, desde séculos antes de Cristo até então. E para minha satisfação, eu tenho aqui em casa uma versão em prosa, com uma editoria de luxo em capa dura (ui!), detalhes dourados, da época dos Clássicos da Editora Abril, de 1981, cuja tradução do Antônio Pinto de Carvalho traz, dentre muitos, o marcante termo “Industrioso Ulisses” ( ![]() Enfim, já não pode haver mais ninguém, pelo menos nesse milênio, reclamando de spoiler de uma das obras que tem a fórmula pronta para a boa e velha “jornada do herói”, e se você conhece bem mesmo, sabe que desde A Ilíada não temos heróis limpos ou deuses bondosos para chamar de nossos. Voltemos ao Nolan… Fui à estreia numa sala premium muito confortável para ver a instigante adaptação. Confesso que o Nolan sabe bem fazer a montagem dos seus filmes, à exceção de Tenet, que em conteúdo já é uma propositada bagunça no roteiro, mas essa Odisseia tem uma boa linha narrativa, alternando entre os necessários flashbacks de Odisseu (ah, vá, vai dizer que não viu o trailer?!). ![]() O elenco também é sensacional, Tom Holand entrega um Telêmaco muito bom, ingênuo e angustiado com a possível existência do Pai (Odisseu). A Zendaya também não tem nem o que dizer, executa bem o seu papel de Athena, muito embora reduzida à miragens e visões de um pretenso contraponto de consciência (talvez seja porque ela e o Tom Holand retornarão em Spiderman… ha. ha.). Anne Hathaway faz uma Penélope muito chorona, isso me incomodou, mas não pela atuação, apenas por conta de que a adaptação do Nolan não leva em conta que foi ela quem segurou o reino de Ítaca por 20 anos, também utilizando a astucia digna de vencer uma guerra homérica. Minha apreensão ficou mesmo para o Matt Damon como protagonista, há tempos eu não o via fazendo um personagem de carga emocional tamanha, mas ele convence como Odisseu de barba-rala. Os demais atores e atrizes servem apenas como escada para o desenrolar da estória, como por exemplo a Lupita Nyong’o, que foi central para a polêmica sem cabimento da Helena negra, e na tela entrega dois papeis de forma muito pragmática, mas transcendente em cada olhar seu nos takes das câmeras IMAX. O John Leguizamo de Eumeu também está sensacional, e foi uma grata surpresa no filme. Mas deixei o destaque para o vampiro que brilha no sol, Robert Pattinson brilha no papel do Antinoo, principal pretendente de Penélope, e aqui o Nolan cria uma trama de fundo que o torna ainda mais odioso e funciona para captar o clímax do filme na hora do encontro final com o protagonista. ![]() Infelizmente, para Matt Damon, Nolan aqui usa da fórmula semelhante à do filme anterior, do Oppenheimer, onde Odisseu é atormentado pela culpa da sua astucia em Troia, o que me desagradou fortemente. Isso inclusive reduz o seu aspecto mais essencial, de ser o mais industrioso dentre os mortais, em vários momentos. É lamentável ver um Odisseu que deixa de ser o causador de cada ato que desenrola a trama para se tornar um consequencialista, que meramente lida com ações supervenientes de sua aventura. ![]() Por conta da necessidade pessoal de tornar tudo um tanto mais racional possível, Nolan pega pontos marcantes da trama e os diminui, aliás, cabe aqui mais uma reclamação: os deuses na adaptação de Nolan são retratados com muita vergonha, sendo apenas manifestações da natureza, até a própria Athena (Zendaya), que no filme aparece como uma visão pós-trauma da guerra de Troia, retratada como sendo a sacerdotisa do templo troiano, morta em frente ao Matt Damon, e tem como finalidade se tornar um pêndulo na discussão interna do protagonista; A ida de Odisseu ao Hades também é muito terrena, literalmente; O passeio na terra de gigantes, caso fosse explicado que seria o lar de pessoas com grande estatura, apenas, serviria, pois está longe do fantástico que Nolan deixa claro que não se agrada. O próprio Polifemo seria um dos casos de supostos remanescentes de ancestrais maiores, que sofreu uma deformação física, e nada mais, sem brilho. Mas devo dizer que a sequência com Polifemo, o ciclope, que aqui é muito bem dirigida, até a ponto de se tornar um terror, não tem o momento do “meu nome é ninguém” Outro trecho que cabe destaque, e poderia até ser um curta metragem independente, foi a passagem na ilha de Circe, em que a Samantha Morton ofusca a todos os demais em cena. Porém, como se trata de Nolan, até a transformação da tripulação de Odisseu é explicada, e sem Hermes/Mercúrio para alarmar o herói, ele vira uma espécie de Batman ali. ![]() Por que é que eu coloquei a imagem da Annie Lennox no post, hein ?! Gostei bastante da sequência das sereias, uma das melhores na obra original, quando o Odisseu usa de um ardil para ser o único a ouvir o seu canto mortal e sobreviver, e o diálogo no roteiro do Nolan é poético e tocante quando realizado através do Matt Damon. Mas se é para reclamar, vou falar também da trilha sonora que já virou uma muleta na direção do Nolan, ao que me parece, a regra é quando ele termina cinco linhas de roteiro, tem que finalizar com uma música. Ajuda muito em alguns takes para demonstrar a vastidão do mar, ou até em cenas em close, que deixa a coisa mais sensível ao espectador, mas tem horas que fica impertinente para acompanhar o filme. Pô, Nolan, segura a mão aí, meu chapa! As resoluções também deixam a desejar em virtude da classificação etária da produção, não que eu seja um admirador de gore E sem mais, mais, partindo para os finais: o filme para mim ficou abaixo porque eu tenho muito carinho pela Odisseia, foi um dos livros de juventude que me marcaram, e vejo em essência que era uma jornada romantizada através da superação de um homem mortal que faz de tudo para voltar para casa, para sua esposa, família e reino, com todos os vícios humanos que definem Odisseu, mas o Nolan deixou a obra mais seca, acobreada com um dever cívico de um veterano de guerra traumatizado. E o clássico fantástico de um herói se desventurando em terras de gigantes, ninfas e deuses, tornou-se o regresso de um velho chato querendo aposentadoria para deixar os negócios da família com o filho e apreciar um cruzeiro com uma esposa chorona. É uma grande produção, mas sem encanto no absurdo, por isso, nota errada 5,5/10 – com muita força para não repetir de ano. Tem muita força na produção, sim, com as filmagens em alta tecnologia das câmeras IMAX, porém, chega uma hora que o contemplativo marítimo fica entediante, e as locações poderiam ter sido mais bem aproveitadas, com exceção do palácio de Ítaca, que realmente é deslumbrante aos olhos. ![]() Mas me diz aí Douglas, você que é o bichão, o bonzão do cinema, como é que o Nolan explica ter enclausurado os gregos naquele cavalo bem esculpido por dias a fio, urinando e defecando dentro dele, cheio de buracos para avistar a movimentação de fora, e os troianos pegam o cavalo com os dejetos dentro e não suspeitam que tudo aquilo ali é de gente infiltrada? ![]() Fica aqui a minha sugestão para vocês assistirem A Odisseia de 1997 |







