Podemos falar sem dúvidas que Leandro Roque de Oliveira é um dos nomes mais importante do rap dos ultimos 15 anos. Mas o que fez o Emicida, o “MC” “Homicida” de rappers nas batalhas da Santa Cruz uma referência na música brasileira hoje, principalmente feita na periferia? Desde suas mixtapes dedo na ferida, cortando hipocrisia com seus versos ásperos a discos recentes com grande flerte com a MPB, o músico (enquadra-lo como apenas rapper é quase um insulto) com suas referências extremamente plurais traz em 2019 o disco AmarElo, com participações bem inusitadas, só pra citar algumas temos Fernanda Montenegro (WTF?), Thiago Ventura (aquele mano do pose de quebrada), Pastores, Pabllo Vittar (YUKE), Majur, MC Tha e o grande Zeca Pagodinho (Dono da Brahma)
Com uma linguagem totalmente atual, o paulistano filho da dona Jacira traz um álbum completo, com referências multifacetadas e hoje (atrasado para um caralho alado) eu trago pra vocês de cabo a rabo todos os detalhes deste novo (agora velho) play, capricornianos leitores do Ideia Errada.

Principia: Logo de início chama a atenção as backing vocals e o teclado Fender Rhodes nos remetendo aquele tempo bom (que não volta nunca mais, sdds DJ Hum e Thayde) da música negra. Um vocal de timbre baixo, uma tônica que é seguida a risca desde seu último álbum “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” (2015) e cresce como se fosse um dragão adormecido. Uma letra que começa falando sobre espiritualidade e vai para relações interpessoais e várias referências (VÁRIAS MESMO), antes de entrar o beat nervoso nessa estética calma, o nosso paulistano street ‘memo’ mostra que é diferenciado. Quando o drop vira vem uma levada bem diferente do que costumamos imaginar. Musicas assim precisa ser ouvida mais de 1 mês pra chegar próximo ao entendimento. É a primeira música e o cara ta a anos luz de geral no rap. A Fabiana Cozza deita nessa aqui. Antes de terminar vem uma poesia linda declamada por um pastor, num incrível plot twist. Se eu to tipo uma vidraça, esse som foi uma pedrada (pedra essa de cor amarela) na minha cara.

Avaliação: Excelente canção, Excelente abertura.

“Cale o cansaço, refaça o laço
Ofereça um abraço quente
A música é só uma semente
Um sorriso ainda é a única língua que todos entende

[…]

Tipo um girassol, meu olho busca o Sol
Mano, crer que o ódio é a solução
É ser sommelier de anzol
Barco à deriva, sem farol
Nem sinal de aurora boreal
Minha voz corta a noite igual um rouxinol
Meu foco de pôr o amor no hall”


NA MORAL O EMICIDA VEIO DO FUTURO SÓ PODE

A Ordem Natural das Coisas: A música que tem a participação de MC Tha tem em seus acordes introdutórios uma levada de som Dory (famoso baleiês) de muito bom gosto. O dedilhado de violão com a voz macia do Emicida cantando versos sinceros, como se lapidasse uma pedra. Um som de sax meio fúnebre dá um tom melancólico até a entrada do beat no momento certo. Vira um boombap-chuvoso-MPB-triste-tons-cinza-sincero-pra-caralho. Ou tipo isso. Um relato cotidiano de “Dona Maria”, uma personagem comum e de fácil identificação no mundo real urbano, principalmente em SP. Soa bem descritivo, detalhado, poético e até romantizado. Tha nos agracia com sua bela voz dando mais melodia ao refrão. Termina na mesma calma que começa. Boa pra um fim de tarde num quiosque de praia chovendo e um fumando um banzai

Avaliação: Boa Canção.

Pequenas Alegrias da Vida Adulta: O nome peculiar que te faz lembrar em iFood, Netflix, Spotify, Uber e cartão de crédito é o título dessa canção. Ela começa num swinguinho maneiroso. Rimas legais pra caramba. Meu Deus, como eu amo as referências do Emicida. É uma brasilidade em cada verso, nas entranhas de cada acorde, sem ter que apelar pra ritmos mais brasileiros como Samba ou Funk Carioca por exemplo. Música de trabalhador, de sentimentos cotidianos. Essa é uma música de churras com narguilé, poucos amigos, bastante risadas, caxetinha da galera, ladys and gentlemans bem borrachos e otras cositas mas. DESTAQUE PRO THIAGO VENTURA ALEATÓRIO NO AUDIO DO ZAP NO FINAL

Avaliação: Lazy song total. Ótima Canção.

“É um sábado de paz onde se dorme mais
O gol da virada quase que nós rebaixa
Emendar um feriado nesses litorais
Encontrar uma Tupperware que a tampa ainda encaixa
Mais cedo brotou alecrim e uns segredos
Tava com jeito que ia dar capim
Ela reclama do azedo, recolhe os brinquedo
Triunfo hoje pra mim é o azul no boletim
Uma boa promoção de fraldas nessas drogarias
O faz me rir na hora extra vinda do serviço
Presentes feitos com guache e crepom lembra meu dia
Penso que os sonhos de Deus devem ser tipo isso”

PARTE DO THIAGO VENTURA

“Ei, Leandro, vou te contar essa história aqui
Porque eu sei que cê dá risada desses bagulho, se liga
Fui lá pra Taboão da Serra esses dias pra visitar minha mãe, né
Pum, relaxado, quebradinha
Aí encontrei com os moleque
Aí o Jow me contou essa história

Ele falou que tava na laje da casa dele fumando um cigarro
É um sobradão que tem uns quatro andar, tá ligado?
Aí quando ele olha lá embaixo na rua
Tem um maluco tentando forçar a porta do carro dele
Forçando assim pra tentar abrir pra roubar o rádio
Sabe quando o maluco tá tentando pra roubar? Pois é!
Aí o Jow lá de cima olhou: Mano, e agora?
Olhou pro lado e tinha um pedra gigante, um pedregulho assim, tá ligado?
Ele falou assim: Mano, é isso memo! Vou mirar e acertar logo no pote!

Moleque, ó o que aconteceu
O Jow mirou no cara, acertou no teto do carro, Leandro
Ele quebrou o carro todo, viado
O maluco foi tentar salvar o carro e quebrou a porra toda
E não contente, a força do impacto
Abriu a porta que o cara não tava conseguindo abrir
E o maluco não me levou o rádio do cara embora?!
Ah, cê é louco, vou contar essa fita no stand up, tá brincando?!”


AE JOW CÊ TEM QUE PARAR DE ARRUMAR ESSAS CONFUSÃO AE.

Quem tem um amigo (tem tudo): Com a frase mais do que verdadeira no título da música, um vocal que nos remete ao samba de breque dos anos 50 ao mesmo tempo que o toque do jazz no piano entra em cena, mostra uma estética novamente romantizada de um Rio de Janeiro antigo, uma vibe de nostalgia. Novamente um timbre macio e baixo adotado pelo Leandrão. Referências de Caetano e Gil, Aleijadinho, Religiões cristãs e de matrizes africanas e entre outras. Até o Zeca Pagodinho roubar a cena, o famoso Zeca-Feira (alguém lembra desse comercial?), a música se mostra uma vibe trip hop feat dono de xerém. Umas cuíca eletrônica dá uma brisa maneira hahaha. Um detalhe: Musica raiz é aquela que o cara agradece o feat NA PRÓPRIA MÚSICA. “Ae Zequinha do pagode valeu memo parceiro por essa canção” e a música rolando. Raiz de verdade esse mano.

Avaliação: Canção totosinha :3


NESSE SOM EU TO TIPO A BACKING VOCAL NO FUNDO.

Paisagem: Pra minha surpresa, essa começa com aquele riff cavadinho na guitarra, um rock alternativo aleatório mas mega bom. Efeitos inesperados e mesmo mantendo o mesmo timbre, Emicida aqui surpreende. Ótima letra falando sobre paz. Drop interessante eletrônico no refrão. Seguro verso entra uma linguagem de rap mais característico do artista. A música parece que vai subir mas se mantém na mesma vibe. Tem uma parte que talvez lembre uma batida de funk, mesmo com a clara alusão a guitarra indie.

Avaliação: Boa Canção

Cananéia, Iguape e Ilha Comprida: A intro é meio que o Emicida ensinando uma criança, seria a filha dele (???) a tocar chocalho. Meio enfático, “sem risadinha certo? Será o brown passa por isso? O Rael? O Djonga?” Acho que não!
Mas voltando pra canção, ele entra com um beat e um bass pegado e uma soul music de altíssimo nível, referência ao elo, ao amar e ao amarelo. Tudo meio que se amarra nessa canção. Barulhos de grilos (ou cigarra, sei lá, é algum bicho que faz barulhinho). Música gostosa de ouvir, de verdade. Ótimo backing vocal no refrão. Agarre o/a @ e lança a dança agarradinho. Vale a pena mesmo!

Avaliação: A BRABA DO DISCO, Ótima Canção. Uma das melhores.


SEM RISADINHA EIN

9nha: Batida de rap, letra sincera e confessional, como se eu tivesse aberto um diário de um adolescente que lesse filosofia e fosse um crânio. A música com a participação de Drik Barbosa tem a linguagem comum do MC, gírias (gíria não, dialeto) no ponto, referências improváveis mais no ponto ainda. Uma sensualidade necessária, mas a beleza sutil da escolha de palavras transforma Emicida num costureiro de boas referências. Lembrando bem também do refrão meio samba jazz pra brilhar a voz da convidada. Tudo de muito bom gosto estético de harmonia.

“Eu tinha 14 ou 15
Naquele mês em que meus parceiro assinou o primeiro 16
Hoje 33 agrava, 12 já ligava
Na solidão restou nós de mão dada
Sem trava o papo fluía, ela ia onde eu ia
Corda e caçamba nessas ruas sombrias
De um beco nessa noite em meio à friagem
Num mundo de dar medo ela me dava coragem, morô?
E a sintonia monstra, neguim?
Número bom, tamanho perfeito pra mim
Que as outra era pesada, B.O, flagrante
Ela não bem cuidada, ela era brilhante
Uma na agulha, não perde a linha
Prendada, ligeira tipo as tiazinha lavadeira
Explosiva de cuspir fogo
Quem viu num queria ver duas vez, eu fui com ela de novo
Meu bem”

Avaliação: Ótima canção.

Ismália: A música já começa com a urgência dos vocais de Larissa Luz, nos abrilhantando com sua magnífica voz. Um piano acompanha e a canção lembra muito a levada de Elza (RAINHA) Soares. Letra que corta na pele e escancara a dívida histórica do branco com o negro. Batidas eletrônicas vem a tona e referências de Ícaro e liberdade trazem a voz macia do nosso artista principal. Sonoridade brasileira até os ossos, tem samba, tem jazz, tem MPB, é plural. To falando tio, Emicida ta em 2077 e a gente luta pra tentar entender o óbvio sobre racismo. É muita coisa pra resenhar, tem que desbravar com muita cautela. Menção honrosa pro poema de Ismália lido por Fernanda Montenegro.

Avaliação: Excelente Canção. Porque humilha tanto Leandrão?


Quem é mais cyberpunk, Keanu Reeves ou Emicida?

Eminência parda: A música começa com uma voz característica de Don Onete e um fundo com os jornais falando da prisão do paulistano. O drop vira e entra um trap com participação do Jé Santiago. Som de festa… pera. Entra sr. Emicida arrebentando nas rimas e sei lá, se eu to na balada e toca um som desse eu começo pensar em todas as falhas da minha vida. Rouba a brisa no bom sentido haha. Referências de candomblé, o tosquice de racismo reverso, a exaltação da cultura negra. Destaque pro Papillon cantando com um sotaque bem característico. Lembrando que o autotune aqui não chega ser enjoado no refrão como a gente vê nos trappers por ai. Tudo é feito na medida.

Avaliação: Boa Canção, mas se ofusca perto de outras grandes canções desse disco.

AmarElo: Chegamos ao carro-chefe dessa obra prima. A referência ao maior compositor brasileiro (okay tô bem clubista nessa), Antônio Carlos Belchior. E talvez por causa desse sample a juventude começou a conhecer um dos nomes mais importantes da nossa música brasileira e deu sobrevida a uma canção que nunca foi um hit da carreira de Belchior. Sujeito de Sorte se tornou uma canção gigante em pleno 2019 (há exatamente 43 anos depois). Só isso já valeria a criação desse single. Mas Emicida, Pabllo Vittar (YUKE) e Majur elevaram o patamar (oto patamá) e com versos modernos, rock energético e meio que um boombap agressivo e macio ao mesmo tempo. A canção nacional da geração millenium tem nome. Tente não se arrepiar, porque eu to tentando até agora. Aliás, Belchior sempre teve razão, o problema é que a gente que não entendeu.

“Eu sonho mais alto que drones
Combustível do meu tipo? A fome
Pra arregaçar como um ciclone (entendeu?)
Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome
O abutre ronda, ansioso pela queda (sem sorte)
Findo mágoa, mano, sou mais que essa merda (bem mais)
Corpo, mente, alma, um, tipo Ayurveda
Estilo água, eu corro no meio das pedra
Na trama tudo, os drama turvo, eu sou um dramaturgo
Conclama a se afastar da lama enquanto inflama o mundo
Sem melodrama, busco grana, isso é hosana em curso
Capulanas, catanas, buscar nirvana é o recurso
É um mundo cão pra nóis, perder não é opção, certo?
De onde o vento faz a curva, brota o papo reto
Num deixo quieto, não tem como deixar quieto
A meta é deixar sem chão quem riu de nóis sem teto (vai!)

[…]

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes
Que nem devia tá aqui
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir”

Avaliação: MUSICA DO ANO


SLC TIO OTO PATAMÁ ESSE SOM CACHORRO


Belchior tinha razão, UÁÁÁÁÁÁU

Libre: HEY CABRÓN TA ACABANDO EL ALBITO, EL DISQUITO. Um toque de violão com uma batida de funk e participação de Ibeyi fecha bem o disco, não é o destaque mas mantém a coerência de pluralidade do disco. Chegamos num ponto que não tem muito mais o que falar, apenas tentar absorver o que de melhor essa obra nos oferece. Essa tocaria suave num bailão de facul hehe.

Avaliação: Canção ok. Bom fechamento.

Sei lá mano, to chocado com o melhor álbum (disparado!!!) do Emicida. Um dos melhores álbuns de 2019 e da década. É até um pecado não dar valor a um artista tão completo e tão genial como ele.
Esse disco é fundamental pra entender a geração que nasceu dos anos 00 pra cá, o que pensa a juventude sobre desigualdade e ascensão social, sobre temas diversos e delicados, a pluralidade de misturas e referências antigas brasileiras nas músicas e tudo com uma linguagem atual, talvez até avançada demais pra entendermos suas mensagens. Com certeza vai estar entre os clássicos da MPB no futuro. Aliás, esse registro já nasceu clássico.

Ulisses Avelino
Músico, Compositor, Historiador e Crítico nas horas vagas


É ISSO GALERINHA, CONSUMAM GRANOLA E BEBAM IOGURTE ZERO LACTOSE. Um beijo pra todos que leram até aqui

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