Nota do editor: Não teremos gif de abertura porque deu pau na conversão do gif. Posteriormente será consertado e essa mensagem irá sumir 🙂

Confesso que esperei o lançamento desse disco com uma certa ansiedade, e quando saiu preferi não ouvir antes de analisá-lo para nossa coluna semanal. Afinal, estamos falando de Humberto Gessinger, o membro mais loiro do Engenheiros do Hawaii (ta ai algo que ele ganhava em disparado). Com uma carreira extensa dentro da banda já citada, projetos como Pouca Vogal e agora com seu impressionante terceiro disco solo (Se contarmos o clássico HG Trio e 1996 como seu debut em carreira solo). Sua banda é formada por dois power trio: Felipe Rotta (guitarra), Rafa Bisogno (bateria) e Humberto Gessinger (baixo) nas músicas plugadas (no total de 8 canções) e nas três músicas restantes com uma sonoridade acústica temos Nando Peters (baixo acústico), Paulinho Nogueira (acordeon) e o dono do disco na viola caipira.
Nesse lançamento, 1Berto vem com um lado mais de resgate ao Engenheiros dos anos 90, na fase do Minuano e do Tchau Radar, além de aspectos folk do seu segundo álbum Insular, bem polivalente, como sempre mostrou em sua carreira. Tentarei deixar meu lado fã em segundo plano (em alguns momentos não) para me aprofundar e trazer o melhor desse álbum que ‘Não vejo a hora’ (trocadalho do carille mesmo ein) de ouvir e resenhar para vocês, estupendos leitores do Faixa a Faixa.


EU AGARANTIO

Partiu: Se começarmos pela capa, tem um cinzeiro grande bem colorido, fazendo alusão a um arco-íris. Muito bonito mesmo. A introdução nos presenteia com um dedilhado muito bem executado, nos trazendo um nível altíssimo logo de cara. O verso começa com um groove de baixo e a voz característica do gaúcho e letras já comuns pra quem ta acostumado com estilo do cantor. Bons efeitos de guitarra, refrão ok. Destaques para os bons drops, vozes em echoes (outro trocadilho ruim) nos remetendo ao Pink Floyd e nuances nada óbvias de Felipe Rotta.

Avaliação: Canção boa. Uma boa abertura.

Um dia de cada vez: Teclado bem anos 80, numa linha tênue entre o cafona e o sofisticado, talvez uma marca que sempre perpetuou Humberto em seus mais de 35 anos de carreira para ouvidos leigos. Baixo pulsante sempre presente. Tem cara de que seria lançado no “Ouça o que eu digo, não ouça ninguém”. Sinto falta de uma vibe mais folk e simplista do que toda essa sofisticação retrô. Destaque apenas pros riffs de baixo, refrão chiclete e a letra com suas belas sacadas e encaixes de rimas

Avaliação: Canção ok pra mediana. Poderia ser melhor

Dólar em baixa
A bolsa em alta
O contrario disso também
Quando a zorra quebra a gangorra
Não se salva ninguém

Hora de dar um tempo
No ressentimento
Hora de dar um zoom
Nos pontos em comum

Bem a Fim: Começo maravilhoso, quase oposto a última canção, uma letra muito bem escrita. Me sinto no meio do mato, queimando mato lenha numa fogueira, uma fazenda, uma vontade de ser andarilho. Grande destaque pra letra, bem atual e com versos cirúrgicos, referências de AC/DC a Fake News. Um acordeon e um violão muito bem tocado de uma beleza rara e formidável que só o pai da Clara consegue nos trazer nessas músicas folk. Consegue trazer o melhor de Dylan, Zé Ramalho e do interior dos pampas numa simples canção . Um poeta (in)compreendido e genuinamente brasileiro.

Avaliação: Excelente canção. A melhor do disco


ESTOU LUDIBRIADO COM A BELEZA DESSA MÚSICA

De repente, silencia
A mais bela sinfonia
O repente nordestino
A trova no galpão
O trovão de Fake News

Tudo espera se eu espero
O que eu quero ouvir

A “Highway to Hell”
Faz a curva e vai pro céu
Quando a resposta vem
Do outro lado alguém
Dizendo que está tudo bem

Algum algoritmo: Uma guitarra com chorus bem melado, talvez até demais. Continua aqui as boas sacadas de Humberto em letras, mas só isso. Cara de música que toca no shopping quando você vai na praça de alimentação. Um pouco sem sal o instrumental e um exagero de efeitos, falo isso com todo respeito aos músicos de altíssimo nível. A mesma coisa do refrão chiclete de “Um dia de cada vez”. Provavelmente você vai discordar de mim nessa, mas ta tudo bem.

Avaliação: Canção mediana.

Calmo em Estocolmo: Essa começa melhor, com um instrumental mais azeitado, um bass mais independente, melodias e harmonias bem mais gostosas de ouvir, mais uma da sessão “pegue seu carro e viaje pro litoral/interior”. As nuances bem costuradas nos trazem um bom campo sonoro pras letras (todas até aqui de alto nível) brilharem melhor que as canções anteriores. Rotta não exagera e acerta o ponto na gama de efeitos aqui. O Bisogno também não compromete.

Avaliação: Canção boa.


Denver: “FIQUE CALMA ESTOCOLMO”

Olhou pro lado, viu: Ótima rufada de caixa feito pelo Bisogno (to me segurando pra não fazer trocadilhos com esse nome) na intro, boa distorção e boa cadência da banda como um todo. Estou percebendo o Humberto cantar mais macio e menos gritado quanto nos anos áureos de “EdH”, mas aqui esse timbre é perfeito para refletir e absorver o melhor que essa canção nos oferece. Ótimos riffs do menino Felipe. Solo virtuose perfeito no fim sem perder a pegada Pop Rock. Bom riff de baixo do Gessinger pra fechar também.

Avaliação: Canção boa

Fetiche Estranho: Calma, não estamos falando do seu gosto sexual peculiar por personagens de jogos de luta. É apenas mais uma canção folk com um bass acústico, novamente o acordeon trazendo a vibe pampeira rio grandense, violões muito bem executados e uma boa harmonia. Se “Bem a Fim” é uma canção de fogueira da madrugada, “Fetiche Estranho” é aquela de apagar a fogueira as 7 da manhã. Tive a impressão que poderia ser maior a canção.

Avaliacão: Ótima canção


Quem entendeu entendeu, quem não entendeu não vou explicar

Maioral: O teclado característico (e aqui não é brega) do Humbertão dá a intro aqui, até vir um plot twist maluco e um riff maravilhoso super técnico de baixo, ótima levada de bateria. Verso bacana com uma boa harmonia. Letra doida, mas nada que o loiro nunca tenha feito. Guitarra com slide no refrão e um pós que vem com um riff bem Faith No More, pra cair novamente no verso do bass diferentão. Tem que prestar atenção nas mudanças, de um bom gosto ímpar.

Avaliação: Ótima canção. Uma das melhores do disco.

Estranho Fetiche: Eita p*rra, eu não acabei de resenhar essa? Não fica em choque de novo, como disse, não estou falando de como você coleciona artigos bizarros de sextoy. Voltando pra canção, é daquelas feito com um padrão bem conhecido em sua carreira. Folk, violão, acordeon, referências abstratas, outras mais lúdicas, outras mais sonhadoras. Fala de Legião Urbana, Pink Floyd, Raul Seixas, Belchior, Elis Regina em uma letra bem costurada, como se fosse uma homenagem a todos artistas que o inspiraram. Tudo isso numa simplicidade sofisticada que gostamos quando feita por artistas incríveis como Humberto Gessinger.

Avaliação: Ótima canção. Uma das melhores do disco. Melhor letra do disco (quiça uma das melhores de sua carreira).

Eram trezentos em Esparta
Marta driblou todos eles
Ao som de Belchior, a voz de Elis
O sonho de final feliz

Quando a chuva era bem vinda
Bem vindo era o Sol também
Pra vicejar a grama mais verde
Que a memória sempre tem

Estranho fetiche o passado
“Wish you were here” meu bem
Sobre a falha de San Andreas
Quem tem medo de ir além


SOM DE MALUCO BELEEEEEEZA

Outro Nada: Outra com uma levada bem anos 80, aqui o efeito e o dedilhado de guitarra é matador, até a entrada feroz bateria e baixo, completando a camada sonora. Teclados num plot twist bem construído. Se algumas canções eu ouviria no mato queimando mato, outras no carro, essa é pra ouvir na vitrola tomando um bom bourbon para harmonizar bem. Novamente um belo arranjo de Felipe Rotta. Não deve nada pra Esteban Tavares e Augusto Licks.

Avaliação: Ótima Canção

Missão: A última música do disco vem com a intro de bateria e o Humberto falando “Qual é a tua, meu chapa?”, e a canção diferente muda bastante de levada, trazendo algo único e inesperado. Bem a cara do pop rock nacional, mas com um tempero a mais nos detalhes. Como disse em “Maiorial”, necessidade ouvir com atenção pra se pegar aos detalhes, fechando bem o álbum.

Avaliação: Canção boa

Qual é a tua meu chapa
Qual é a tua missão
Velho malandro da lapa
Dono de um mundo em extinção
Qual é a tua ruína
Teu coliseu tuas missões
Lá onde tudo termina
Um sonho jogado aos leões

Um disco curto, de fácil absorção, com riffs beirando a perfeição do baixo. Alguns exageros em algumas canções, principalmente dos efeitos de guitarra e teclado, mas bem contornados em outras amostras musicais. Humberto dá o recado, mostra que tem lenha pra queimar mato ainda e que consegue entregar boas músicas mesmo com o Rock Nacional em baixa.
Não vi a hora passar (que trocadilho horrível, de novo). Como fã esperava um pouco mais, como jornalista é um ótimo disco de Rock. Enfim, vida longa ao melhor baixista e compositor gremista do Brasil. Betão da massa.

Ulisses Avelino
Músico, Compositor, Historiador e Crítico nas horas vagas


Deixe o som hawaiano de maconheiro pampeiro te levar bro. Um beijo para todos que leram até aqui.

Escrevam nos comentários o que você achou desse faixa a faixa.