Pra você leitor comum que ta perguntando que raios é Lagwagon eu te explico: Lagwagon é uma banda de punk rock californiano/hardcore de bermudão maneiro dos anos 90 que tem um hit estrondoso chamado “May 16th” (e que todo 16 de Maio, os fãs publicam o som nas redes sociais, no melhor estilo “Acorde o Billie Joe do Green Day, já é setembro”) que provavelmente você conhece do jogo clássico Tony Hawk Pro Skater 2.

Guitarras rápidas, bateria tão rápidas quanto, riffs simples, apelo melódico nos vocais e letras que tratam sobre problemas cotidianos. O tipo de banda que você se identifica facilmente.

O quinteto liderado por Joey Cape (vocalista) tem em sua nova formação Chris Flippin (guitarrista e um dos membros originais), Chris Rest (guitarrista desde 1997 na banda), Joe Raposo (baixista desde 2010) e Dave Raun (baterista desde 1996).

Com seu novo álbum Railer (que vem com uma capa mega divertida de uma mano aleatório andando de patins), o primeiro desde Hang (2014), a banda tenta trazer um som moderno ao mesmo tempo que querem resgatar as raízes criadas em clássicos do estilo californiano de hardcore melódico extensivamente explorado nos anos 90 com clássicos como Trashed (1994), Hoss (1995) e a obra prima Let’s Talk About Feelings (1998). E com isso, hoje trago minhas impressões nesse faixa a faixa pra vocês, (ISSO MESMO! VOCÊS JOVENS PADAWAN!), lindos leitores do Ideia Errada:

Stealing Light: A canção já começa com um riff extremamente cativante na guitarra, como se estivesse te chamando pra uma festa. Quando a segunda guitarra entra com um solo mega virtuoso e técnico (principalmente pros padrões da banda), a batera e o baixo ficam numa ‘cozinha’ perfeita. Nesse momento já sabemos que valeu a pena colocar o disco inteiro pra tocar. Nosso menino Joey só tem a simples missão de pilotar essa locomotiva com seu vocal característico melódico enquanto a banda vem como um motor a todo vapor. Pequenas quebras e alternâncias na canção vão te cativar, você realmente não sabe o que esperar (isso no bom sentido). Coro sing-alone no final da canção termina de forma magistral. É meus amigos, você está ouvindo o fabuloso Lagwagon.

Avaliação: Excelente abertura. Canção incrível que deveria ser obrigatória nas tours da banda

Surviving California: PARA TUDO, QUE RIFF É ESSE? Uma mescla de Metal feito pelas guitarras com uma paulada de Dave Raun descendo a mão na bateria, tempos quebrados e isso é apenas os primeiros 10 segundos de música! O verso entra bem coeso com uma letra boa. Gosto muito de como o refrão não tira a sensação de estar ouvindo uma canção de hardcore, é tudo muito bem pensado. O solo entra na hora que precisa entrar (novamente acima da média da banda. Gente, o que está acontecendo com o menino Rest, ta tocando pra c*ralho), a música ainda tem mais um pós refrão com um ótimo backing vocal do Flippin.

Avaliação: Excelente Canção. Uma das melhores do disco e de toda carreira da banda.

NÃO CREIO NO QUE MEUS OLHOS ESTÃO OUVINDO

Jini: Intro ok, verso veloz e um vocal melódico. Não precisa de muito pra conquistar o ouvinte até aqui. Refrão mediano. Destaque pro drop que vem após, só baixo e batera (Raposo e Raun estão muito entrosados). Vem um verso estranho, outro drop maneiro e novamente o refrão mediano.

Avaliação: Canção ok. Variações entre coisas legais na música com levadas não tão boas quanto o padrão que a banda exerce até aqui.

Parable: A intro acústica que remete a Beatles e/ou qualquer coisa que a Dolores O’Riordan dos Cranberries adoraria fazer. Tudo isso feito com vozes de criança, dando um tom melancólico e bonito. O plot twist começa numa virada espetacular de bateria e um riff oitavado característico da banda nos anos 90. Ótima melodia de vocal e de muito bom gosto a forma que se constrói a canção. Uma aula de hardcore moderno. Final acústico no melhor estilo “músico de rua pedindo trocados na estação de trem”

Avaliação: Excelente canção.

NUM ME CONVIDARAM PRA ESSA INTRO SHOWCRÍVEL :'(
(ah é, eu morri)

Dangerous Animal: QUE INTRO DE BAIXO F*DA. Daqueles grandiosos, simples e que cativa quando é tocado em festivais grandes. Guitarras ásperas ditam o tom até a virada do Raun dar a partida no verso. Vocal está mega agressivo nessa música. Dá vontade de pegar um skate e mandar brasa. Refrão melódico lindíssimo, as alternâncias são tão naturais e bonitas que parecem um quadro feito a mão. Técnica apuradíssima. Tudo perfeitamente no lugar.

Avaliação: Excelente canção, uma das melhores do disco. Quase uma aula de Hardcore.

  • Matemática = 4
  • Português = 5,5
  • Hardcore = DEZ, NOTA DEEEEEEZ

Bubble: Chegamos a metade do disco com o single principal e uma intro pautada novamente por uma virada de bateria. Baixo pulsante de Raposo bem encaixado com as guitarras furiosas. O destaque aqui é a letra que fala sobre viver numa bolha, cita bandas como Samiam, Jawbreaker, fala sobre o livro “A Dança da Morte” de Stephen King e dá um ar de sarcasmo. Joey sabe tocar no coração das pessoas como ninguém com suas letras para refletir. Nada além do que já vimos até aqui. Potencial para hit.

Avaliação: Excelente canção.

Here in the past I repeat what they say
Here in the vault they instructed us to remain
We’ll not fade away
Grateful for our home in our bubble

Aqui no passado eu repito o que eles dizem
Aqui no abrigo onde nos mandaram ficar
Não iremos desaparecer
Gratos por nosso lar em nossa bolha.

The Suffering: um dedilhado lindíssimo e um piano bem tocado abre a segunda parte do que está sendo um álbum que beira a perfeição. Ouvimos uma citação de Bertrand Russell (influente filósofo Galês) até entrar a paulada sonora. Lembra da locomotiva? Aqui ela está desenfreada e pedindo passagem, como se quisesse demonstrar que sabe criar hinos melódicos ao mesmo tempo que soa agressivo. Deveria ser objeto de estudo pra toda banda iniciante que quer fazer Punk Rock de qualidade ouvir essa canção.

Avaliação: Excelente canção. Uma das melhores do disco. Essa com certeza é uma aula de Hardcore.

SAI QUE A LOCOMOTIVA DO HC TA PASSANDO XOVEM

Dark Matter: Mais uma canção veloz, riff oitavado. Verso meio confuso. Bom refrão. Deve funcionar bem ao vivo com grandes rodas de bate-cabeça. Algumas quebras interessantes.

Avaliação: Canção boa.

Fan Fiction: Riff cortante no melhor estilo “cerol pó de vidro na linha chilena”, cai num verso que lembra Descendents em Cool Be to You. Bom refrão, apelo pop e harmonias não-usuais. Interlúdio maneiroso com um riff cavado (cortante igual linha chilena, lembre-se desse detalhe) na guitarra. Efeito no final da música de muito bom gosto. Vale a experiência.

Avaliação: Canção boa.

TA PASSANDO O PEIXÃO, PASSA O CORTANTE E PEGA PELA RABIOLA

Pray for Them: Novamente um piano dá o tom da introdução, mas não dá tempo para mergulharmos em sua sonoridade. Os californianos já entram com tudo numa paulada. Letra e melodia que fala sobre crenças fúteis, aliás o destaque aqui é a letra.
Não tem cara de que se tornará uma canção celebrada no futuro.

Avaliação: Canção ok. Cansativa em alguns momentos.

The barrier protects us from defeat
Shelter from the clash of evidence and old beliefs
Our hopes and fears, respectively inane
And  in his name we are certain to be saved
We will not bear existential grief
We’ll never be powerless without relief

A barreira nos protege da derrota
Proteção contra o choque de evidências e velhas crenças
Nossas esperanças e medos, respectivamente insanos
E em seu nome, certamente, seremos salvos
Não vamos suportar tristeza existencial
Nunca seremos impotentes sem alívio.

Auf Wiedersehen: Parece nome de cerveja de burguês (ou não, sei lá, não falo alemão e provavelmente nem você). Mas é apenas uma canção com intro fofinha de violão (daqueles Tonante veio que fica na casa da sua tia gorda). Canção veloz. Porém, dessa vez soando enjoativa e sem o gás que as músicas do começo do disco nos traz. Vocal mais maduro de Joey e talvez aqui lembre muito o Milo do Descendents (novamente) cantando. Bom drop e solo final.

Avaliação: Canção boa, soa enjoativa mas valeu a pena ter ela no disco.

OKAY, EU DEI UM GOOGLE E DESCOBRI QUE SIGNIFICA “ADEUS”

DANE-SE, SEMPRE VAI ME LEMBRAR UM ALEMÃO TOMANDO CERVEJA PRA C*RALHO

Faithfully: Bom começo com as guitarras, cai num verso ‘mais-do-mesmo’ ultra veloz característico e lembrando o Trashed (1994). Refrão legal. Novamente um vocal maduro de Joey. Ótimas oitavadas dos Chris(es) Flippin e Rest, casando bem com o baixo de Raposo, que soa independente e bem timbrado aqui. Final sing-alone pra cantar bêbado nos shows.

Avaliação: Canção boa, mas nada do que você não tenha visto até aqui.

O que os subestimados músicos da pequena cidade de Goleta, no estado da Califórnia (terra de Katy Perry, olhem só) nos entregam nesse lançamento é justamente uma aula em forma de música. A primeira parte do álbum tudo soa como se fosse costurado milimetricamente, tipo uma cirurgia de alta precisão. E nessa operação, Joey Cape e sua trupe acertaram em cheio. Prato cheio para saciar os fãs mais antigos, os ouvintes casuais, os novos fãs e todo mundo cabeça aberta que curte Hardcore bem feito. Valeu a pena esperar 5 anos por esta obra prima.

Ulisses Avelino
Músico, Compositor, Historiador e Crítico barato nas horas vagas

Ande de skate, ouçam HC/Punk Rock, usem camisinha e bebam água. Um beijo pra todos que leram até aqui <3

Escrevam nos comentários o que você achou desse faixa a faixa.