O que você estava fazendo em 1999/2001? Se você foi adolescente nesta época provavelmente tu curtia Blink 182 ou Backstreet Boys (ou os dois, ta tudo bem, não precisa esconder mais hahaha). Canções como “All the Small Things”, “Adam’s Song”, What’s My Age Again”, “First Date” e “The Rock Show” fizeram a trilha sonora de muita gente que se identificava com o estilo irreverente e piadas infames do trio Mark Hoppus (baixo e voz), Tom DeLonge (guitarra e voz) e Travis Barker (bateria).

Quando chegou 2003 e todo mundo começou a ficar meio emo, você gostava de “I Miss You”, “Always” e “Feeling This” escondido, querendo copiar a franja do Tom e tal. A gente sabe do seu passado sombrio amigx.

Mas o tempo passou, você cresceu, envelheceu, o Blink 182 acabou, voltou em 2009 com o Tom DeLonge, gravou disco, teve saída conturbada, entrada de Matt Skiba (Alkaline Trio), novo disco, criticas ao novo guitarrista/vocalista e depois de muitas reviravoltas chegamos a 2019 (ufa!).

Agora como uma banda de veteranos, já não tão engraçados, mais reclusos e sem o frescor que os anos 90/00 trazia para bandas de Pop Punk no mainstream. Apesar de ter uma base sólida de fãs e uma grande espera para o Nine, (nono disco da banda, contando com a demo Buddha (1994), assim como o nome sugere) com sua capa multicolorida lembrando um arco-íris, a banda decidiu abrir seus horizontes e seguir a tendência do que os adolescentes de 2019 estão ouvindo. Mesmo com a possibilidade de ser massacrada pelos fãs mais tr00 (os popunkeiro raiz, emão 00 raiz fotolog my space) a banda tentou inovar. Abaixo eu faço um faixa-a-faixa do que achei relevante trazer para vocês, lindos leitores do Ideia Errada:

The First Time: Ao som a primeira microfonia e da bateria no contratempo do Sir. Travis Barker, o Nine dá as caras com aquele som familiar e característico da banda. Antes de entrar no primeiro verso ouvimos gritos que evocam muito o álbum anterior (California – 2016). Mark leva a canção com apelo pop em seus versos até que o pré refrão mostra a grande surpresa e a cara de vanguarda que o Blink busca nesse álbum: batidas Trap. Cai num refrão meia bomba, mas dá entrada a uma levada massa com alternância de vocal com o Skiba brilhando. Quem curte o Self-Titled vai sentir uma boa nostalgia com esta canção.

Avaliação: Ótima abertura. Ótima canção.

Happy Days: O primeiro single que eu ouvi na rádio e já saquei que era o Blink pelo virtuosismo do (sempre ele) menino Barker. Com uma levada que lembra Sorry do Sleep Talk (banda nova da Austrália, vale a pena a procura) com um tempo mega quebrado daqueles que é impossível pensar e tocar naquela sua bateria imaginária. Baixo pulsante do Mark entra na medida pra dar mais emoção na letra, cai num refrão pegajoso e pop (no bom sentido, afinal estamos falando dos reis do Pop Punk). Um detalhe incrível é como eles mesclam uma levada bem diferente para os padrões de um single comum.

Avaliação: Ótima canção.

“Hey kid, don’t quit your daydream yet
I know you feel locked out in the cold
Seems like you’re lost and alone
Hey kid, don’t listen to your head
It only fills you with dread and with doubt
Left looking for an easy way out”

“Ei, garoto, não pare de sonhar acordado ainda
Eu sei que você se sente trancado lá fora, no frio
Parece que você está perdido e sozinho
Ei, garoto, não ouça sua cabeça
Ela só te enche de pavor e de dúvida
Te deixando à procura de uma saída fácil”

Heaven: O dedilhado de Skiba é só um chamariz pro Mark entrar (novamente) na medida com sua levada, embora que seja simples, encorpada do seu Fender Bass. Refrão forte, lembra Bored to Death do disco anterior. Destaque pro teclado bem sutil dando o tempero necessário. Do meio pra frente fica cansativo.

Avaliação: Mais do mesmo, canção ok.

Darkside: Quer saber como é ter uma banda de rock xovem nos anos 90 e amadurecer? Então esqueça essa música. É uma válida tentativa de se aproximar de um público mais novo. Mais pop que punk, nada que o Blink não tenha tentado anteriormente, só que dessa vez com uma vibe 2019 estampado em cada acorde e autotune. Fãs antigos não vão se reconhecer, entretanto é explícito que essa o foco é a molecada. Você que torceu o nariz e viu o auge da banda eu só tenho uma coisa pra te dizer: Relaxa vovô garoto, tem Blink pra todo mundo. 🙂
Avaliação: Canção boa

Blame it On My Youth: O eletrônico moderno e as mil viradas do Travis domina essa aqui. Alguns efeitos bacanas. Mas nada de especial nessa. Talvez passe desapercebido num futuro próximo quando tiver outra tendência do momento em que não é calçado esta canção. Provavelmente ficará datado. Detalhe pro violão de cordas velhas antes do drop do refrão (efeito maneiroso).
Avaliação: Música mediana.

Generational Divide: PARA TUDO QUE ESSA É PRO FÃ DO HARDCORE MOCHILINHA TUPÁ TUPÁ, você mesmo vovô garoto que tava torcendo o nariz pra Darkside, quando o menino tatuado desce a mão no primeiro riff de bateria você já lembra de um tempo bom (que acabou e não volta mais saudades Thaíde). E tem de tudo, vocal atropelado maroto do Mark, Skiba numa vibe Alkaline Trio. Riffs velozes e… UÉ ACABOU? A MELHOR CANÇÃO DO DISCO TEM 51 SEGUNDOS, AH VÁ PRA PQP, TA ECONOMIZANDO NO RARDICÓRI CUMPÁDI.
Avaliação:  Melhor música do disco

EU QUERO BATER CABEÇA BLINKO UMOITODOIS

Run Away: Novamente bass de Trap, com teclado maneiroso e uma bateria orgânica mandando bronca (NÃO NÃO NÃO ESTOU DANDO CONTAAAAAA ~se vc curte Pavilhão 9 tu entendeu a piada horrível). Novamente a letra aqui é um diferencial. Refrão forte, um dos melhores do Skiba no disco. Essa com certeza ficará bem menos datada que a Blame it On My Youth. Destaque pro riff insano de batera no interlúdio. O ex-Aquabats está insano com seus cymbals.

Avaliação: Ótima canção.

“Lay you in the dark where we stumble in the mysteries
An opened book that you took and now I’m history
You moved away and you left me with your dying wish
I couldn’t prove it was you, you’re the arsonist”

“Deito você no escuro, onde tropeçamos nos mistérios
Um livro aberto que você pegou e agora eu sou história
Você se afastou e me deixou com seu desejo de morrer
Eu não pude provar que era você, você é o incendiário”

Black Rain: Um clima passivo agressivo dá o tom (delonge) pra canção até a caída diferenciada na voz do Skiba, boa mescla entre peso e o eletrônico.
Avaliação: Canção ok.


“WTF o que fizeram com meu blink”

I Really Wish I Hated You: Olha a referência de trap de novo ai gente, bastante autotune. Bateria repetitiva (até o efeito colabora para essa impressão). Música perfeita para buffet infantil (bem naquela hora que mostra a infância da criança no powerpoint tosqueira). Detalhe pro riff cavado no violãozinho (de novo, até nisso ficou repetitivo). Parece que não termina a música.

Avaliação: Bem mediana pra ruim. Talvez a mais fraca do disco.

Pin the Grenade: Riff característico do Travis, no melhor estilo “ouvi 3 segundos da canção já sei que é o Blink”. Baixo do Mark soa menos pulsantes do que nas músicas que abrem o disco. Refrão pop pegajoso ok. Em alguns momentos a batera soa como eletrônico com colagens de bumbos e drops desnecessários. Pois é, até o DEUS Travis passa do ponto as vezes. Pro final da canção tem um interlúdio bacana e cai novamente pro refrão “mamãe sou xovem”.

Avaliação: Outra canção mediana, com muitos exageros.

“nossa que canção legal, vou colocar 3784738947349 riffs de batera nele”

No Heart to Speak Of: Começa com uma levada mega interessante até os exageros eletrônicos interferirem na experiência de uma boa canção de Pop Punk. Um dos melhores refrões do disco. Final apoteótico, com o melhor solo de batera até agora. Mas esse é daquele tipo de canção que vai desagradar tanto os tio veio quanto a juventude.

Avaliação: Canção Mediana, com uma tristeza de que poderia ficar melhor.

Alô tio Mark, não deixa o menino tatuagem dominar a composição pô.

Ransom: Não, não é aquela banda dos irmãos loirinhos que cantavam aquelas trilhas sonoras pra sitcom falído da Disney/Nickelodeon. Tem um começo que remete ao trap só pra enganar besta até cair num refrão hardcore punk porrada na orelha (maior plot twist do disco, confesso). Quando você pensa em se empolgar ela acaba na mesma vibe que “Generational Divide”, só que agora com menos vigor que a outra.

Avaliação: Boa canção, poderia ser maior.

Aquela dancinha contagiante dos irmãos Hanson, se você lembra disso você ta velho amigx.

On Some Emo Shit: o título chamativo com uma letra mais chamativa ainda (bem emo mesmo) começa com um trap no melhor estilo Post Malone, caindo num refrão que parece ser clichê mas tem muita riqueza harmônica que não pode deixar passar. Nova amostra do virtuosismo (pqp já usei tanto esse termo que ta virando chavão) do batera carismático.
Avaliação: Boa canção.


TO COM SAUDADE DA MINHA FRANJA

Hungover You: Talvez a mais diferente até então, com uma bateria que lembra o baião (só que tocado por um gringo). Mas assim que começa os primeiros acordes dos instrumentos melódicos a canção vem a se transformar no melhor que o Blink pode oferecer dessa nova fase. Levada diferenciada, teclados inesperados, alternância de vocais (Skiba deita nessa também). Refrão lindíssimo, ótima letra. Destaque pro final com baixo de trap.
Avaliação: Uma das melhores do álbum (e de toda fase Skiba no Blink 182). Devia ficar permanente no set de shows da banda.

Remember To Forget Me: Aqui o violão e o tecladinho inesperado se faz presente. Isso é bom? Aparentemente sim. Vocais casando bem. Segunda parte o trap aparece com força até cair num refrão com a banda toda, que segura essa levada até o final com uma demonstração de talento do Travis (não aguento gente, sério, toda hora tenho que falar da técnica apurada desse cara). Destaque extremo pra letra de Mark que fala de sua depressão. Essa é daquelas músicas que talvez tocaria na rádio Mix FM (se você é de São Paulo vai manjar) lá pra 2007/2008. Em tempos de Spotify talvez passe desapercebida, infelizmente.
Avaliação: Ótima canção.

You left pieces of me along the side of the road
Right after you said, you’d never leave me alone
Found myself on the wrong side of the door
I’ll come in if you let me
I got a song in my head
You played me over the phone
Left the light on upstairs but there ain’t nobody home
All the nights that you’d end up all alone
Remember to forget me”

“Você deixou pedaços de mim ao longo da estrada
Logo após você dizer que nunca me deixaria sozinho
Me encontrei no lado errado da porta
Eu vou entrar se você me deixar
Tenho uma música na minha cabeça
Você me mostrou no telefone
Deixei luzes acesas no andar de cima, mas não há ninguém em casa
Todas as noites em que você acabaria sozinho
Lembre-se de me esquecer”

Entre altos e baixos vale a pena ouvir pra conhecer e entender os rumos da banda que fazia a cabeça de toda uma geração adolescente. Só não espere um novo Enema of the State (1999). Aliás, não espere nem um Neighborhoods (2011). É um álbum de 2019 que segue tendências do ano vigente e que provavelmente terá muitas canções datadas num futuro próximo, ao mesmo tempo que abrirá espaço para novos fãs que não viveram a época de ouro do pop punk para se familiarizarem com o estilo. Talvez 2 ou 3 músicas virem “clássicos”. Talvez nem isso.

Ulisses Avelino
Músico, Compositor, Historiador e Crítico barato nas horas vagas.


Um beijo pra todos que leram até aqui (FICOU GRANDE PRA CARAMBA, sorry).


Escrevam nos comentários o que você achou desse faixa a faixa.